sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por quê?

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?

Carlos Drummond de Andrade

O Deus de Cada Homem

Quando digo "meu Deus",
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.

Quando digo "meu Deus",
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.


Quando digo "meu Deus",
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.

Quando digo "meu Deus",
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.

Carlos Drummond de Andrade

MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa


Eis um poema que pretendo usar profissionalmente. Acredito que aguardar o cumprimento de um prognóstico fechado possa produzir aprendizado, seja para o doente, seja para quem o acompanha. A reflexão sobre a morte iminente, o repensar a vida, a revalorização das idéias, a reorganização dos valores, o analisar o passado e o elaborar o futuro do pretérito são processos de tamanha preciosidade dentro da existência do ser humano perante o fim que julgo necessário imortalizá-los. Não só pelos frutos que eles nos trariam mas também pelas pessoas que os sofreram. Como? Ora, só há um meio de imortalizarmos nossa passagem nessa vida: palavras escritas! Entregarei um poema, o Mar Salgado por exemplo, para cada pessoa que estiver passando pelas diferentes fases do adoecer e pedirei que reflitam e escrevam sobre o significado que o texto adquire no naquele momento da vida do doente, segundo os processos biopsicosociais (sim, eu confesso, estou me entregando ao termo mestre da Medicina Preventiva!) que envolvem todo o fenômeno. Tenho certeza que daria para montar um livro de verdades sinceras, significações universais, lições profundas, semânticas inovadoras, enfim, talvez um resumo da existência, simples e bela. Caros leitores, ajudem-me com o nome do livro...

Como dar más notícias?

Os objetivos da prática médica incluem sempre proteger as pessoas dos malefícios das doenças, das deficiências e da morte, e a medicina moderna e sua tecnologia estão cada vez mais adaptados para isso. Mas o bom médico está um passo adiante ao ajudar seu paciente a enfrentar o sofrimento, mesmo que a doença seja incurável, que a deficiência não possa ser superada, mesmo que a morte seja inevitável. Possibilitar que ele ou ela e(ou) e a família entendam o que está acontecendo é grande parte disso.

Adaptado de: Hutson & Myers. The relationship between ethics and phronesis. 1999; Pediatric Surg Int 15:320-322.